Quando a Análise do Discurso encontra uma das frases mais repetidas da vida escolar: “quem se esforça, consegue”.
Uma frase que parece justa
“Ele é inteligente, só não se esforça.” “Se ela estudasse mais, tirava nota boa.” “Fulano veio de uma família humilde e hoje é médico, então todo mundo consegue.” Você já ouviu alguma dessas frases numa reunião pedagógica, num conselho de classe ou na conversa de corredor. Talvez já tenha dito uma delas num dia cansativo.
A primeira reação costuma ser concordar, e não sem motivo: esforço realmente importa, e nenhum professor quer dizer a um aluno que não vale a pena tentar. O problema não está em valorizar o esforço. Está no que a frase, repetida sozinha, deixa de dizer.
O que o discurso do mérito diz, e o que silencia
Como vimos em O que é Análise do Discurso, todo discurso diz alguma coisa e, ao mesmo tempo, apaga outras. “Quem se esforça consegue” afirma que o resultado de cada aluno depende do empenho dele. O que fica de fora é tudo o que vem antes do esforço: se há livros em casa, se alguém ajuda com o dever, se o aluno dorme bem, se trabalha à tarde, se tem internet, se já foi bem ensinado nos anos anteriores, se a escola tem professor para a disciplina.
Na linguagem da Análise do Discurso, isso é uma questão de condições de produção: a mesma frase, “ele não se esforça”, tem sentidos muito diferentes quando dita sobre um aluno que chegou ao 6º ano sem alfabetização consolidada e sobre um que teve reforço particular a vida inteira. Quando o discurso do mérito ignora essas condições, ele transforma uma diferença de ponto de partida em uma diferença de caráter.
De onde vem essa ideia
A palavra “meritocracia” tem uma história curiosa. Ela foi popularizada pelo sociólogo britânico Michael Young, no livro The Rise of the Meritocracy, de 1958, que era uma sátira: Young imaginava uma sociedade em que o mérito, medido por testes, passava a justificar novas desigualdades. Ou seja, a palavra nasceu como alerta, não como elogio.
Na sociologia da educação, o francês Pierre Bourdieu, junto com Jean-Claude Passeron, mostrou em obras como Os Herdeiros que o desempenho escolar está fortemente ligado ao capital cultural que a criança traz de casa: o vocabulário, os hábitos de leitura, o conhecimento do que a escola espera. Se você já leu Quando a Resposta é “Eu Não Sei”, reconhece a ideia: o repertório que uma pessoa tem molda o que ela consegue imaginar como possível.
Como esse discurso aparece na sala
O discurso do mérito raramente aparece com esse nome. Ele se disfarça de elogio, de conselho ou de exemplo:
- A história de superação usada como régua. “Fulano saiu da mesma comunidade e conseguiu” pode inspirar, mas, usada como argumento, sugere que quem não conseguiu foi porque não quis.
- O rótulo de “preguiçoso”. Parece descrever o aluno, mas costuma esconder uma pergunta que ninguém fez: o que está travando esse aluno?
- O “é só querer”. Transforma uma barreira concreta, como leitura defasada, falta de material ou cansaço, em falta de vontade.
- A comparação entre irmãos, turmas e anos. “A turma do ano passado era mais esforçada” ignora que cada turma chega com uma história diferente.
Esse mecanismo conversa com o que já analisamos aqui: o que imaginamos sobre um aluno antes de conhecê-lo molda como o tratamos, e o “é assim mesmo” faz parecer natural o que é uma falha corrigível. O discurso do mérito faz algo parecido: transforma uma situação construída em um traço pessoal do aluno.
E o efeito sobre o aluno?
Um aluno que ouve, ano após ano, que “só não se esforça” aprende uma lição sobre si mesmo: que o problema é ele. Isso pesa mais do que uma nota baixa, porque atinge a vontade de tentar. Como discutimos em “Pra Que Eu Quero Aprender Inglês?”, o desinteresse costuma ser a consequência de um repertório que faltou, e não a causa da dificuldade.
O discurso do mérito também pesa sobre o professor. Quando o resultado de uma turma é lido só como esforço individual dos alunos, ou só como esforço individual do professor, ficam fora da conversa as condições de trabalho, o tempo de planejamento e a estrutura da escola, como vimos em “Planeje Sua Aula”.
Isso significa que esforço não importa?
Não. Esforço importa, e muito. O ponto é que ele não acontece no vazio. O esforço de um aluno rende mais quando encontra uma atividade acessível, um professor que explica de outro jeito, tempo para errar e tentar de novo. Reconhecer isso não é “facilitar” nem baixar a expectativa: é garantir que o esforço do aluno tenha chance de dar resultado.
Quatro trocas de frase para experimentar
- Em vez de “ele não se esforça”, tente “o que está dificultando para ele começar?”.
- Em vez de “se ela estudasse mais…”, tente “que apoio ela ainda não teve nessa matéria?”.
- Em vez de “fulano conseguiu, então todo mundo consegue”, tente “o que ajudou o fulano, e o que podemos oferecer à turma?”.
- Em vez de elogiar só a nota, reconheça também o caminho: “vi que você tentou de outro jeito dessa vez”.
Essas trocas não resolvem sozinhas as desigualdades da escola, mas mudam a pergunta que o professor faz, e é a pergunta que orienta o que ele vai tentar na aula seguinte.
Uma atividade para conversar com a turma
Para turmas do 8º ano ao Ensino Médio, vale uma roda de conversa em três cantos da sala: concordo, discordo e depende. Leia em voz alta a frase “quem se esforça sempre consegue” e peça que cada aluno se posicione e explique por quê. Depois, pergunte: o que mais, além do esforço, ajuda uma pessoa a conseguir o que quer? Anote as respostas no quadro, separando o que depende da pessoa do que depende das condições.
Cuidado importante: não peça que ninguém exponha a própria situação familiar ou financeira. Mantenha a conversa em exemplos gerais ou em personagens, e aceite o “passo” de quem não quiser falar. Se um aluno trouxer algo mais pesado, acolha sem aprofundar diante da turma e encaminhe para a coordenação, conforme o protocolo da sua escola.
Para levar daqui
Valorizar o esforço e reconhecer as condições não são ideias opostas. A frase “quem se esforça consegue” só fica injusta quando é a única que se diz. Acrescentar a segunda metade, “quando encontra condições para isso”, devolve ao discurso aquilo que ele apagava.
Referências: Michael Young, “The Rise of the Meritocracy” (1958); Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, “Os Herdeiros” e “A Reprodução”; Michel Pêcheux e Eni Orlandi (conceitos de Análise do Discurso). Recomenda-se a leitura das obras originais para aprofundamento.
