Oficina: Para Além do Dito

Para Além do Dito: a escuta sensível e os silenciamentos na sala de aula inclusiva

Proposta de oficina de formação docente e apostila de apoio

Esta oficina parte de um pressuposto da Análise do Discurso de linha francesa: a formação docente não deve ser prescritiva (dizer ao professor o que falar), mas reflexiva e desconstrutiva, levando o educador a estranhar as evidências do cotidiano e a escutar os efeitos de sentido de suas práticas.

Ficha técnica

Carga horária4 horas (um turno intensivo) ou 2 encontros de 2 horas
PúblicoProfessores da Educação Básica, gestores pedagógicos e mediadores ou profissionais de apoio
Objetivo geralReconhecer dinâmicas de apagamento discursivo e construir arranjos pedagógicos que sustentem a autoria de estudantes público-alvo da educação especial

Cronograma

Módulo 1: Sensibilização e quebra da ilusão de transparência (45 min)

Objetivo: vivenciar o apagamento e problematizar a ideia de que o silêncio é falta de assunto.

  • Dinâmica do Eco Interrompido: em duplas, uma pessoa tenta contar uma experiência enquanto a outra adota microcomportamentos de desatenção institucional (antecipar a frase, olhar só para o relógio, responder olhando para outra pessoa da sala).
  • Problematização: conversa guiada sobre a sensação corporal e discursiva de ser desautorizado na própria fala.
  • Aporte teórico rápido: silêncio constitutivo e silenciamento (censura), com base em Eni Orlandi. Na escola, o silenciamento não é ausência de som, mas interdição da condição de sujeito.

Módulo 2: Laboratório de análise do cotidiano escolar (1h15)

Objetivo: identificar as formações discursivas que operam em rotinas reais da escola.

Em pequenos grupos, cada equipe analisa um caso (veja o estudo de caso abaixo) respondendo ao roteiro de três perguntas.

Módulo 3: Painel de ressignificação e práticas de contragolpe (1h15)

Objetivo: construir intervenções para substituir o silenciamento pela circulação polifônica da palavra.

  • Plenária de devolutiva com mediação do formador.
  • Guia de deslocamento, construído em conjunto, na dinâmica Parar, Repensar, Adotar.

Módulo 4: Fechamento e carta de compromisso discursivo (45 min)

Objetivo: comprometer cada docente com uma mudança concreta no planejamento semanal.

Leitura espontânea de algumas cartas e entrega de referências para aprofundamento.

Estudo de caso impresso

Casos ilustrativos, compostos a partir de situações comuns na escola. Não retratam estudantes ou profissionais específicos.

Caso A. A professora de Ciências explica a matéria voltada para a turma e diz: “A monitora vai te ajudar a colar as figuras aí, tá bom?”.
Caso B. Em uma roda de conversa, um estudante com paralisia cerebral inicia a digitação na prancha de comunicação, mas o colega ao lado antecipa a resposta e o professor valida o colega para “manter o ritmo da aula”.
Caso C. Um estudante autista tapa os ouvidos e recusa a folha de atividade. O relatório pedagógico registra: “apresenta desinteresse e comportamento opositor”.

Roteiro de análise (para cada caso)

  1. Quem fala por quem nesta cena?
  2. Qual formação discursiva sustenta esse comportamento: a médico-capacitista (deficiência como falta) ou a de direitos (diferença como parte da diversidade humana)?
  3. Que sentidos o silêncio ou a recusa do estudante estão produzindo aqui?

Anotações do grupo:

Guia de deslocamento: Parar, Repensar, Adotar

PararRepensarAdotar
Intermediar a fala do aluno não oralizado falando por ele.O tempo pedagógico da sala: a pressa curricular como produtora de censura discursiva.Tempo estendido de resposta e mediação direta entre pares, sem a tutela permanente do adulto.

Carta para o próprio planejamento

Escreva um parágrafo respondendo: Qual aluno da minha turma eu tenho ouvido apenas como silêncio ou ausência, e que dispositivo semiótico (visual, gestual, temporal) vou abrir para que ele exerça autoria esta semana?

Matriz de autoavaliação docente

Use semanalmente para observar seus próprios gestos discursivos.

DimensãoPergunta reflexivaPonto de alerta
Direção do olharQuando falo com o estudante que tem apoio, olho para ele ou para o mediador?Olhar para o mediador converte o aluno em objeto do discurso, não em interlocutor.
Tempo de latênciaEspero pelo menos 15 a 20 segundos para que o estudante formule sua resposta, verbal ou gestual?Preencher a pausa do aluno com a fala docente silencia a elaboração.
Leitura da recusaInterpreto a recusa ou a agitação motora como indisciplina ou como manifestação legítima?Chamar de indisciplina pode apagar a denúncia de sobrecarga sensorial ou de tarefa inadequada.
Autoria curricularAs produções do estudante revelam a voz dele ou apenas a intervenção motora do profissional de apoio?Atividades em que o mediador guia a mão do aluno produzem autoria fictícia.

Referências

  • ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da Unicamp.
  • ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes Editores.
  • PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp.
  • PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes Editores.

educacaonasentrelinhas.com.br · Educação nas Entrelinhas

Leia também

Rolar para cima