Contos e Emoções: uma Oficina sobre a Raiva com “O Trovão da Inês”

Depois da oficina sobre o medo, a linha Contos e Emoções chega a uma emoção que toda sala conhece bem: a raiva. É ela que aparece no empurrão no corredor, na carteira batida, no caderno rasgado e no “não vou fazer nada” dito de braços cruzados.

A raiva costuma ser tratada na escola só como problema de comportamento. Mas ela é uma emoção como as outras: o que pesa é o que o aluno aprende a fazer com ela. Se você ainda não leu o artigo que explica por que esse trabalho também é currículo, vale começar por Competências Socioemocionais na Sala de Aula: o que a BNCC Realmente Pede.

Por que usar um conto para falar de raiva

Perguntar “por que você se descontrolou?” a quem acabou de explodir quase nunca funciona: a pessoa se defende, e a conversa vira bronca. O conto cria uma distância segura. Quando o personagem é quem sente a raiva, o aluno consegue olhar para ela sem se sentir acusado, e muitas vezes reconhece a própria história sem precisar confessar nada.

O conto: “O trovão da Inês”

Texto original, escrito para esta oficina. Você pode ler em voz alta, contar com suas palavras ou projetar com imagens.

Inês acordou com um trovão morando na barriga. Ninguém mais ouvia, mas ele roncava forte. Na escola, o lápis quebrou, e o trovão roncou. A colega pediu a borracha, e o trovão roncou mais alto. Quando o menino esbarrou na mochila dela, o trovão saiu pela boca em forma de grito.

A sala toda ficou em silêncio. Inês ficou com vergonha, mas a professora não gritou de volta. Disse baixinho: “Esse trovão é seu. Vamos descobrir como deixar a chuva cair sem molhar ninguém?”

Inês respirou fundo três vezes, como quem sopra uma vela devagar. O trovão foi diminuindo. Não sumiu, porque trovões não somem, mas virou um ronco manso. Naquele dia ela aprendeu que sentir raiva não é o problema. O difícil é o que a gente faz com ela.

A estrutura da oficina (15 a 25 minutos)

  1. Acolhida (2 min): “Que cor tem o seu dia hoje?” Cada um responde com uma palavra ou aponta um cartão colorido.
  2. O conto (5 min): leitura ou contação, sem interromper.
  3. Roda de conversa (8 a 10 min): as três perguntas abaixo, da mais simples à mais pessoal.
  4. Registro (3 a 5 min): desenho, frase ou fala em voz alta.
  5. Fechamento (1 min): “O que eu levo desta roda?”

Perguntas para a roda de conversa

  1. Compreensão: o que aconteceu com a Inês antes de ela gritar? O que foi “enchendo” o trovão?
  2. Autoconhecimento: onde você sente a raiva no corpo: na barriga, nas mãos, na cabeça? Como você percebe que ela está chegando?
  3. Estratégia e cooperação: o que ajuda você a “deixar a chuva cair sem molhar ninguém”? O que um colega pode fazer para ajudar, sem mandar você se acalmar?

Registro: o mapa do trovão

Cada aluno desenha um corpo simples e pinta onde sente a raiva. Ao lado, escreve ou desenha uma coisa que ajuda a acalmar: respirar, beber água, sair um minuto, apertar as mãos, contar até dez. Quem preferir pode só dizer em voz alta.

Dica: guarde os mapas. Em outro dia, quando uma situação de conflito acontecer, basta perguntar baixinho: “O que o seu mapa diria agora?”

Adaptações para turmas inclusivas

  • Alunos com pouca leitura ou sem leitura: use imagens que acompanham o conto (um trovão, uma barriga, uma vela) e peça que apontem a cena.
  • Alunos que se comunicam por símbolos ou cartões: deixe à mesa cartões com “raiva”, “calma”, “preciso de um minuto” e “quero ajuda”.
  • Quem não gosta de falar na roda: aceite o desenho como resposta completa e converse depois, individualmente.
  • Quem se agita com facilidade: deixe que segure um objeto macio durante o conto.

Cuidados importantes

  • Ninguém é obrigado a contar nada. Dizer “hoje eu passo” também vale.
  • Não corrija sentimento. Valide a emoção e converse sobre a atitude. “Você pode estar com raiva, mas não pode bater” é diferente de “isso não é motivo para ficar bravo”.
  • A roda não é terapia. Se uma fala indicar situação grave, encaminhe para a coordenação ou para a rede de proteção, conforme o protocolo da sua escola.
  • Combine regras antes: um fala de cada vez, e o que se diz na roda não vira piada depois.

Para continuar a série

Se você ainda não leu, a oficina sobre o medo está em Contos e Emoções: uma Oficina sobre o Medo com “O Barulho debaixo da Cama”. As próximas edições vão trabalhar vergonha, ciúme, tristeza e alegria. Se você experimentar a oficina do trovão, conte nos comentários como foi a roda na sua sala.

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