A linha Contos e Emoções une, em cada artigo, um conto e uma roda de conversa sobre uma emoção. Começamos pelo medo, talvez a emoção mais universal da infância e também uma das mais silenciadas: muitas crianças aprendem cedo que “não tem nada a temer” ou que “gente grande não tem medo”.
Por que usar o conto? Perguntar “do que você tem medo?” pode causar constrangimento, principalmente em quem já foi repreendido por isso. Quando a conversa parte de um personagem, o aluno fala dele primeiro e, se quiser, depois fala de si. Para entender por que esse trabalho também é currículo, veja Competências Socioemocionais na Sala de Aula: o que a BNCC Realmente Pede.
O conto: “O barulho debaixo da cama”
Texto original, escrito para esta oficina. Pode ser lido em voz alta, contado ou projetado com imagens.
Todas as noites, quando a luz apagava, Davi ouvia um barulhinho debaixo da cama: tec, tec, tec. Ele puxava o cobertor até o nariz e ficava imóvel. “Deve ser um monstro”, pensava.
Numa noite, cansado de ter medo, Davi acendeu a lanterna e olhou. Lá embaixo havia uma bolinha de pelo tremendo mais do que ele. Era o gato da vizinha, que tinha entrado pela janela e batia as unhas no assoalho de tanto susto.
Davi riu baixinho. O gato também parecia respirar mais aliviado. “Você também estava com medo?”, perguntou. O gato miou. Dali em diante, o barulho debaixo da cama virou companhia.
Davi percebeu que o medo não sumiu por mágica. Sumiu quando ele teve coragem de olhar.
A estrutura da oficina (15 a 25 minutos)
- Acolhida (2 min): “Que cor tem o seu dia hoje?”
- O conto (5 min): leitura ou contação, sem interromper.
- Roda de conversa (8 a 10 min): as perguntas abaixo.
- Registro (3 a 5 min): desenho, frase ou fala.
- Fechamento (1 min): “O que eu levo desta roda?”
Perguntas para a roda de conversa
Sobre o personagem (mais seguras):
- O que o Davi pensou que havia debaixo da cama? Por quê?
- O que mudou quando ele acendeu a lanterna?
- Será que o gato também estava com medo? Como vocês sabem?
Para aproximar do vivido (opcional):
- Já aconteceu de vocês terem medo de alguma coisa e, depois de conhecer melhor, o medo passar?
- O que ajuda a gente quando está com medo?
Fechamento: “Vamos pensar numa palavra para descrever o que é sentir medo. Pode ser qualquer palavra, não precisa ser certa.”
Registro: a lanterna da coragem
Cada aluno desenha um medo (pode ser um monstrinho) e, ao lado, a “lanterna” que o ajuda a olhar: uma pessoa, um objeto, uma frase ou uma respiração. Quem preferir pode só falar em voz alta.
Adaptações para turmas inclusivas
- Alunos com pouca leitura: acompanhe o conto com três imagens (a cama, a lanterna, o gato) e peça que apontem a cena.
- Quem usa cartões de comunicação: deixe à mesa “medo”, “calma”, “preciso de ajuda”.
- Quem prefere não falar: aceite o desenho como resposta completa.
Cuidados importantes
- Ninguém é obrigado a falar. Dizer “hoje eu passo” também vale.
- Não minimize o medo. “Isso não é nada” fecha a conversa. Reconheça o sentimento primeiro.
- Atenção a falas que indiquem situações graves, como violência em casa ou negligência. Acolha sem investigar na frente da turma e encaminhe para a coordenação ou rede de proteção, conforme o protocolo da sua escola.
- A roda não substitui acompanhamento psicológico quando houver sinais de sofrimento persistente.
Próximo da série
A próxima oficina trabalha a raiva, com o conto “O trovão da Inês”.
