Os Quatro Pilares da Educação: Conhecer, Fazer, Conviver e Ser na Sala de Aula

Um relatório da UNESCO de 1996 resumiu o que a escola deveria ensinar em quatro verbos. Ainda hoje, eles servem de bússola para quem planeja aula.

De onde vêm os quatro pilares

Os “quatro pilares da educação” aparecem no relatório Educação: um tesouro a descobrir, produzido pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da UNESCO, e coordenado por Jacques Delors. O documento é de 1996 e ficou conhecido como Relatório Delors.

A ideia central é simples e ambiciosa: a educação não deveria se limitar a transmitir informação. Ela precisa formar a pessoa inteira, e por isso se organiza em quatro aprendizagens que se complementam.

Aprender a conhecer

É aprender a aprender: desenvolver atenção, memória, pensamento crítico e o gosto por descobrir. Mais do que acumular conteúdo, trata-se de dominar os instrumentos do conhecimento, como ler com compreensão, pesquisar, comparar fontes e perguntar.

Na sala: uma aula de inglês em que o aluno não só decora uma lista de verbos, mas aprende a procurar e a testar a regra por conta própria.

Aprender a fazer

É transformar o saber em ação: resolver problemas, trabalhar em equipe, produzir algo com o que se aprendeu. O foco sai da repetição e vai para a competência de aplicar em situações reais.

Na sala: em vez de só completar lacunas, o aluno produz um cartaz, um diálogo ou um pequeno texto com o conteúdo estudado.

Aprender a conviver

Também traduzido como “aprender a viver juntos”. Envolve respeitar a diversidade, resolver conflitos pelo diálogo, cooperar e compreender o outro. O relatório o considerava um dos grandes desafios do século que se aproximava.

Na sala: rodas de conversa, trabalhos em grupo bem estruturados e projetos de convivência, como os que trabalhamos em Competências Socioemocionais na Sala de Aula.

Aprender a ser

É o desenvolvimento da pessoa como um todo: autonomia, discernimento, responsabilidade, imaginação, sensibilidade. É a aprendizagem que conversa mais diretamente com o autoconhecimento, como discutimos em Projeto de Vida no Ensino Médio.

Na sala: dar ao aluno espaço para escolher, justificar e refletir sobre o próprio percurso, e não apenas cumprir tarefas.

Como usar os quatro pilares no planejamento

Uma forma prática é, ao fechar o plano de aula, olhar para os quatro verbos e perguntar quais deles a atividade realmente exercita:

  • Conhecer: o aluno teve a chance de entender o porquê, e não só o quê?
  • Fazer: ele produziu ou aplicou alguma coisa?
  • Conviver: houve troca real com os colegas, ou cada um trabalhou isolado?
  • Ser: ele teve alguma oportunidade de se posicionar, escolher ou refletir?

Nenhuma aula precisa contemplar os quatro ao mesmo tempo. A ideia é que, ao longo de uma semana ou de um bimestre, nenhum pilar fique esquecido. É comum que o primeiro, aprender a conhecer, concentre quase todo o tempo, enquanto os outros três aparecem só de vez em quando.

Um exemplo: uma aula de Biologia com os quatro pilares

Imagine uma sequência sobre ecossistemas do bairro com uma turma do Ensino Fundamental. Conhecer: os alunos observam o pátio ou a praça e formulam perguntas sobre quem vive ali e do que depende. Fazer: registram o que encontraram em desenhos e tabelas e montam um pequeno mapa dos seres vivos do local.

Conviver: trabalham em duplas ou trios, dividindo funções (quem observa, quem anota, quem desenha) e combinando como apresentar o resultado. Ser: no fechamento, cada um escreve ou conta o que mudou no seu olhar sobre o lugar onde vive e o que gostaria de cuidar. A mesma atividade, sem custo extra, passa a exercitar as quatro dimensões.

Cuidados ao usar os pilares

Os quatro pilares funcionam melhor como uma pergunta de revisão do que como um formulário a preencher. Se virarem uma lista obrigatória em toda aula, perdem o sentido. Vale lembrar também que o relatório é de 1996 e não substitui o currículo: ele dialoga com as competências gerais da BNCC, como o conhecimento, o pensamento científico, a empatia e a cooperação e o autoconhecimento, e ajuda a enxergar o que o planejamento já faz e o que ainda falta.

Os pilares e a inclusão

Os quatro pilares combinam bem com uma educação inclusiva: um aluno que tem dificuldade na escrita, por exemplo, pode demonstrar que aprendeu a conhecer e a fazer por outros caminhos, como apontar, montar ou falar. É a lógica que usamos em Como Eu Adapto uma Atividade: mudar o jeito de mostrar o que se aprendeu, sem esvaziar o objetivo.

Para levar daqui

Conhecer, fazer, conviver e ser não são etapas, são dimensões. Uma boa aula raramente exercita as quatro, mas um bom ano letivo deveria. Vale usar esses quatro verbos como uma pergunta de revisão: o que a minha turma aprendeu a fazer, a conviver e a ser, além do que aprendeu a conhecer?

Referência: UNESCO, “Educação: um tesouro a descobrir” (Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors), 1996. Recomenda-se a leitura do documento original para aprofundamento.

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