O Futuro que Imaginamos Pro Aluno, Antes Dele Mesmo Imaginar

Cruzando Formações Imaginárias com a série de Projeto de Vida desta coluna

Duas reflexões que precisavam se encontrar

Esta coluna já tratou de dois temas que, olhados separadamente, parecem tratar de coisas diferentes. De um lado, vimos que boa parte dos alunos de comunidade periférica, ao serem perguntados sobre seus planos de futuro, respondem “eu não sei” — não por falta de capacidade, mas por falta de repertório de possibilidades visíveis. De outro, vimos que professores (como qualquer pessoa) formam, antes mesmo de conhecer um aluno de verdade, uma formação imaginária sobre quem ele é — com base em pistas como bairro, aparência, sotaque, histórico familiar.

Juntas, essas duas ideias revelam algo mais incômodo do que cada uma isoladamente: a ausência de expectativa de futuro que vemos no aluno não é só um vazio neutro, à espera de ser preenchido. Às vezes, é o espelho de uma imagem que a escola — através de professores, materiais, rotina — já projetou sobre aquele aluno antes mesmo dele formular a própria.

Como a formação imaginária projeta um teto de futuro

Quando um professor forma, de antemão, uma imagem sobre “o tipo de aluno” que tem na sua frente — com base em marcadores sociais, não em conhecimento real da pessoa —, essa imagem carrega embutida uma expectativa não só de comportamento em sala, mas também de futuro plausível para aquele aluno. Um professor pode, sem nunca dizer isso em voz alta, imaginar que determinado aluno “provavelmente” vai seguir um caminho profissional mais limitado, baseado inteiramente na formação imaginária que fez sobre a origem dele — não em nenhuma evidência real sobre o potencial ou interesse daquele estudante específico.

Isso se manifesta de formas sutis: que tipo de pergunta o professor faz sobre o futuro de qual aluno (“você já pensou em fazer curso técnico?” para uns, “você já pensou em fazer faculdade em outro estado?” para outros, sem base real de desempenho que justifique a diferença); que tipo de incentivo é oferecido com mais ou menos entusiasmo; que aluno recebe indicação pra participar de um projeto de ampliação de repertório (visita a universidade, feira de profissões) e qual não recebe, porque “provavelmente não teria interesse mesmo”.

O efeito combinado: o aluno aprende a imagem que projetaram nele

Se um aluno cresce recebendo, de forma consistente e repetida ao longo dos anos escolares, sinais — nunca ditos abertamente, mas praticados — de que o “esperado” para alguém como ele é um teto de possibilidade limitado, isso se soma exatamente à falta de repertório de referências que discutimos no artigo sobre comunidade periférica. Não é só que o aluno nunca viu, de fora da escola, um leque amplo de possibilidades. É que, dentro da escola, a própria formação imaginária que os adultos fizeram sobre ele reforçou, silenciosamente, o mesmo teto restrito.

Isso explica, em parte, por que a resposta “eu não sei” ao ser perguntado sobre projeto de vida não é resistência nem desinteresse — é o resultado lógico de um ambiente que, por dois caminhos diferentes (falta de referência externa e expectativa imaginária interna), converge para o mesmo lugar: a dificuldade real de imaginar um futuro diferente do que já foi, implicitamente, esperado dele.

O que fazer com essa percepção

Perguntar-se, deliberadamente, se a expectativa que tenho sobre o futuro de um aluno é baseada em algo que ele demonstrou, ou numa imagem que formei sobre “gente como ele”. Essa é a mesma pergunta de auditoria pessoal sugerida no artigo sobre Formações Imaginárias, aplicada especificamente ao território do futuro e da carreira.

Oferecer o mesmo leque de incentivo e informação a todos, independente da formação imaginária prévia. Se um projeto de ampliação de repertório (visita a universidade, palestra de profissional, feira de carreiras) está disponível, oferecer com o mesmo entusiasmo a todos os alunos — não apenas àqueles que a imagem prévia já classificou como “prováveis candidatos”.

Fazer perguntas abertas sobre futuro, não perguntas já filtradas pela expectativa. Em vez de “você já pensou em fazer um curso técnico?” (pergunta que já embute um teto), perguntar simplesmente “o que você gostaria de aprender a fazer melhor?” ou “o que te interessa, mesmo que pareça distante?” — sem pré-selecionar o tipo de resposta que parece “adequada” àquele aluno específico.

Uma última conexão

Voltando ao artigo sobre comunidade periférica: sugerimos, ali, trabalhar repertório antes de trabalhar sonho — mapear quem os alunos conhecem e o que essas pessoas fazem, trazer referências de trajetória próxima. Esse trabalho de ampliação externa de repertório só terá efeito completo se, ao mesmo tempo, o professor também revisar a própria formação imaginária sobre o teto de possibilidade que projeta, sem perceber, sobre cada aluno. Ampliar repertório de fora, mantendo uma expectativa limitada por dentro, tende a produzir progresso mais lento do que fazer as duas coisas juntas.


Este artigo cruza dois conceitos já trabalhados nesta coluna: Formações Imaginárias (Pêcheux) e a reflexão sobre Projeto de Vida em contextos de poucas referências.

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